segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Apontamentos Marginais*

                                                     

Uma das atividades mais extraordinárias ao fazer clínico do Filósofo é sua aptidão de reconhecer, acolher, no discurso Partilhante, aquilo que lhe constitui como fundamento estrutural (distinção entre assunto imediato e assunto último). Noutras palavras, aquilo que o move existencialmente, inclusive em direção às desestruturações, ao sofrimento, à dor existencial que não deseja, suas buscas, projetos, sonhos...

Octávio Paz em seu texto diz assim: (...) Quando um poeta encontra sua palavra, logo a reconhece: já estava nele. E ele já estava nela. A palavra do poeta se confunde com o seu próprio ser. Ele é sua palavra. No momento da criação, aflora à consciência a parte mais secreta de nós mesmos. A criação consiste em trazer à luz certas palavras inseparáveis do nosso ser” (O arco e a lira, 2012).

O Filósofo Clínico experimentado no discurso da clínica aprende a pesquisar com propriedade e método, essas verdades do sujeito Partilhante. A partir de sua historicidade circunstanciada, contada nas próprias palavras e em seu jeito de ser, devir, existir e sem a interferência indevida da Hermenêutica, cuidando para que os agendamentos sejam mínimos, para não distorcer a originalidade em processo de surgimento.  

Aqui o Filósofo acolhe, descreve, compartilha o que é significativo para a pessoa, tendo como chão sua representação de mundo e tudo mais que for aparecendo. Nessa etapa predomina a fenomenologia como fonte de inspiração teórica, em busca de uma escuta visionária ao fenômeno empírico dessas narrativas do Partilhante.

Em seu texto Octavio Paz anuncia: “(...) A linguagem é poesia e cada palavra esconde certa carga metafórica disposta a explodir no momento em que se toque na mola secreta, mas a força criadora da palavra reside no homem que a pronuncia” (O arco e a lira, 2012).

Esse dado que o poeta mexicano nos apresenta, contribui ao esclarecimento sobre a força e a energia de um discurso existencial singular que não sofra distorções. A Filosofia Clínica está a léguas de distância das práticas e intervenções com base nas tipologias psiquiátricas. Sua compreensão de mundo e de ser humano, tendo como ponto de partida a singularidade. Prescreve atenção e cuidado num território que a priori desconhece e, no qual se aventura com os recursos de seu constructo metodológico.

Assim trata de vigiar, antes de qualquer outra coisa, as tentações hermenêuticas de si mesmo na interseção com o outro sob seus cuidados, permitindo, com o recurso da fenomenologia, da analítica da linguagem, uma aproximação cuidadosa, num mínimo de agendamentos, com esse território estranho do Partilhante que vai chegando, em tempo próprio, no lugar consultório ligado às suas possibilidades existenciais, em uma pronúncia que lhe seja íntima e, na originalidade do instante, conceda a matéria-prima com a qual o Filósofo Clínico irá trabalhar.

(...)
Um abraço,
HS

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Apontamentos Marginais*


No sábado passado, no Café e Livraria Multicultura ali na cidade baixa em Porto Alegre, aconteceu a ultima edição do ano do nosso Café Filosófico Clínico. O tema dessa vez era: A clínica e o discurso existencial.

Nesse espaço privilegiado em um convívio animado pela reflexão das práticas, a diferença de pontos de vista, escuta atenta e acolhimento á essa diversidade incrível, existe um algo mais que sempre aparece. Aqui, embalados pelo olhar fenomenológico, a pluralidade narrativa acontece e se desdobra em seus inéditos discursos de singularidade. Não se deixa enganar pelos procedimentos apriorísticos da tradição, suas certezas, as tipologias. 

Tudo isso acontecendo apesar das mensagens midiáticas que tentam, o tempo todo, nos impor uma ditadura da generalização, do estereótipo, de conceitos como: normalidade, doença, loucura, patologias psiquiátricas... 

Colegas, amigos, convidados, transitaram pelas ideias, depoimentos, num exercício privilegiado de construção compartilhada, enquanto o café aquecia os corações, mentes e almas, dando um tom de casa da vó ao lugar, num encontro recheado de hermenêutica compreensiva. 

Talvez o aspecto mais significativo dessas atividades no Café Multicultura, seja o encontro de vontades e representações, uma busca para alimentar a alma, fortalecer o espírito com novas ideias, poesia, literatura, musica, filosofia clínica...

Por esse lugar tão próximo de uma Microfísica do Poder (Michel Foucault), inúmeras elaborações pessoais acontecem, dando viva voz ao que restaria desmerecido, no silencio dessas enormes lacunas onde a singularidade vivencia seus dias. Um deslize Kafkiano permite abrir janelas, portas, frestas por onde se acessam outras verdades, como a ótica dos excluídos pela loucura diagnóstica, o desmerecimento das linguagens incompreendidas.

Assim, avesso aos rituais da ditadura da normalidade, vamos descobrindo essa cidade incrível refugiada em cada um, cheia de becos, ruelas, avenidas desconhecidas... escondida nos desvãos da caricatura oficial, acolhe desmerecimentos, desvenda utopias, persiste na arte de sonhar seu paraíso perdido. 

Nesse sentido o tema deste mês introduziu a interseção da clínica e suas repercussões no discurso existencial, ou seja, como a terapia em Filosofia Clínica pode contribuir com o dia-a-dia das pessoas, tendo como ponto de partida os ensaios desconstrutivos e reconstrutivos dos encontros.

O significado das vivências e convivências no cotidiano onde cada apessoa se encontra, as palavras com as quais convive, constituindo seus dias, os aromas, sabores, cores, a musicalidade dos convívios, a busca por aprender sobre o inacreditável universo singular em cada sujeito, seu jeito de ser, motivações, aquilo diante do olhar, ainda sem palavras para se contar. 

A clínica interfere no discurso existencial e vice-versa, essa separação vale apenas para efeitos de uma tradução aproximada, pois quem tenta dizer o que acontece na hora-sessão, quando não se utiliza da ficção, encontra limites para contar sobre os eventos da terapia, seus desdobramentos na vida lá fora que acontece aqui dentro.

(...)
Um abraço,
HS