segunda-feira, 19 de junho de 2017

Breves notas dos primeiros anos (rascunhos) XXXVIII*


Em Filosofia é possível se fazer múltiplas leituras, interpretações, derivações, dos textos clássicos. Os estudos acadêmicos, por exemplo, procuram dar uma ênfase de autores, escritos, de acordo com as preferências pessoais dos seus professores, tendo como base seus competentes comentários da história da Filosofia.  

Quando a pesquisa não acadêmica (muitas vezes concebendo novos paradigmas), sob muitos pontos de vista mais libertária, talvez mais filosófica até, se debruça sobre a produção reflexiva dos pensadores, é possível descobrir muitas facetas, até então desconhecidas da leitura oficial, consagrada, titulada, constante no programa das escolas reconhecidas.

Um desses casos é a interpretação Psicanalítica de nomes como: Friedrich Nietzsche, Arthur Schopenhauer. Outro, numa direção parecida, embora diferente quanto ao entendimento e aplicabilidade dos ensinamentos é a leitura da Filosofia Clínica.

Em Schopenhauer, por exemplo, se sustenta o pressuposto de que o mundo é a minha representação. O Filósofo diz assim: “(...) possui então a inteira certeza de não conhecer nem um sol nem uma terra, mas apenas olhos que veem este sol, mãos que tocam esta terra; em uma palavra, ele sabe que o mundo que o cerca existe apenas como representação, na sua relação com um ser que percebe, que é o próprio homem (...)”.

Este trecho introduz com eficácia a percepção de que somos singulares, um projeto irrepetível, únicos como sujeitos de nossa história. Um conceito caríssimo ao novo paradigma da Filosofia Clínica. Um fundamento que desconstrói e denuncia o modelo clássico das tipologias, classificações psiquiátricas, as quais, inclusive, se prestam à ideológia da produção industrial de medicamentos e seres humanos.

Ser diferente quanto a fundamentação (e suas resultantes!) dos modelos clássicos de psicoterapia ou psiquiatria é apenas um aspecto que nos faz contradizê-los. Existem outras questões referentes ao embate ideológico, como: razões políticas, econômicas, sociais, corporativas...

Aqui nos interessa introduzir a leitura filosófico-clínica de: “O mundo como vontade e representação”, como um convite para saber mais sobre um conceito desconhecido, embora tão próximo da condição humana: sua singularidade.

O pensador, no livro primeiro, diz assim: “(...) segue-se que, um único sujeito, mais o objeto, chegariam para constituir o mundo considerado como representação, tão completamente como os milhões de sujeitos que existem; mas, se este único sujeito que percebe desaparecer, ao mesmo tempo, o mundo concebido como representação desaparecerá também”.

Assim é possível resgatar o fenômeno humano da ideia equivocada de tratamento universal. Considerá-lo a partir de seu mundo como vontade e representação. Saber onde nasceu e desenvolveu sua estrutura de pensamento, as interseções, os limites desse horizonte existencial único, denominado em Filosofia Clínica de Partilhante, ou seja, alguém que compartilha um espaço de vida.

A expressão Partilhante, por si só, já contém um forte elemento de distinção com o termo Paciente. Neste último existe um sujeito (Psiquiatra, Psicanalista..) que sabe e conduz sem interferência do outro/objeto (Paciente), as sessões de terapia; um saber- poder reside na figura do profissional, suas leituras, estudos, experiências passadas, todo o aparato que o constitui para tratar a pessoa objeto.

Em Filosofia Clínica se cuida de qualificar o teor das construções compartilhadas, iniciando por acolher a historicidade do sujeito que chega (a pessoa tem voz e vez!), contada em sua própria versão, com tudo aquilo que possa contribuir a atividade clínica do Filósofo: sua linguagem, os significados próprios, tempo, lugar, deslocamentos e muito mais.  

Nesse sentido se destaca a reflexão de Schopenhauer: “(...) Por isso vemos já que não é de fora que devemos partir para chegar à essência das coisas, procurar-se-á em vão, só se chegará a fantasmas ou fórmulas; pareceremos alguém que dá a volta a um castelo, para encontrar a entrada, e que, não a encontrando, desenhará a fachada (...)”.

Essa breve introdução sobre um tema da fundamentação teórica e as leituras dos clássicos da Filosofia, tem como pressuposto a percepção de incompletude no mundo da ciência em geral e no âmbito das ciências humanas em particular. Tudo aquilo que se possa dizer, pensar, compartilhar, ficará parcial. Essa incompletude existencial parece uma pré-condição humana.

Também ensina o pensador alemão (século XIX): “(...) a ciência encontra-se, em cada descoberta, reenviada sempre e sempre mais longe; para ela não existe nem termo nem satisfação completa (...)”.

Assim a Filosofia Clínica se apresenta como um novo modelo de compreensão e entendimento do fenômeno humano, estruturado num viés em deslocamento para acolher e interagir com a novidade de cada atendimento. Resultante de um encontro único que terá o horizonte que a interseção clínica permitir.  

(...)
Um abraço,

HS 

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Breves notas dos primeiros anos (rascunhos) XXXVII*


O horizonte da terapia, sob muitos aspectos, depende do horizonte Partilhante. Bem assim do construto clínico do Filósofo, aí incluído seus estudos, supervisão, a plasticidade, estilo pessoal de acolhimento, cuidados, atenção a autogenia, desde o assunto imediato aos movimentos de maior alcance na malha intelectiva. 

Cabe ao Filósofo Clínico estar atento aos sinais da relação clínica, ou seja, ao conjunto de indícios que vão surgindo, sem, no entanto, considerar ou desconsiderá-los excessivamente. Respeitar os critérios básicos para identificação tópica (em rede) e submodos (pela via discursiva) pode ajudar: evolução do assunto imediato, dado literal, dado padrão, relação... 

Perceber as predisposições narrativas, em diferentes momentos da terapia, ou seja, quando a pessoa estiver cansada, aflita, irritada, desestruturada, equilibrada, descansada, os ritmos e termos agendados no intelecto próprios ou tomados de empréstimo pela via dos agendamentos... Esse dado pode significar uma maior visibilidade das predominâncias à pessoa, para bem depois das queixas preliminares.

No entanto isso pode não bastar! Aqui penso na qualidade da interseção entre os envolvidos, os desdobramentos, adições e subtrações, divisões e multiplicações dos conteúdos clínicos que vão aparecendo, já na etapa dos exames categoriais e prosseguindo bem depois, até a fase da alta compartilhada.  

O espaço de visibilidade no qual a pessoa exercita seu cotidiano, costuma se modificar (as vezes radicalmente, inclusive ficando irreconhecível aos membros de sua tribo atual) no processo da terapia. Nesse sentido as janelas podem se ampliar, diminuir, mudar endereço, alterar distâncias...

Nesse lugar privilegiado onde a clínica acontece (não me refiro ao espaço físico), inicialmente com o estudo da geografia subjetiva, o Filósofo trata de compreender as razões, desrazões e tudo mais que possa surgir. Antes de mais nada, trata de aprender qual o chão onde poderá transitar, a espécie de autorização que terá para decifrar a linguagem, lugar, formas, onde o Partilhante elabora seu discurso existencial.  

A categoria tempo (exames iniciais) pode auxiliar no desenvolvimento da clínica, qualificar a interseção, o entendimento (epistemológico), a compreensão (construção compartilhada), contribuir para que esse lugar onde Filósofo e Partilhante se encontram, seja um espaço favorável aos horizontes da Terapia. 

Lembrando de que esse processo tem ingredientes únicos, nem sempre possíveis divulgar, relacionados as especificidades dos encontros. Levando-se em conta o momento existencial de cada Partilhante (se está maduro para o processo clínico, por exemplo), a preparação do Filósofo e muitos outros aspectos que podem surgir na duração da clínica, a qual tem hora e local para iniciar, permanecendo inconclusa enquanto for necessária. 

(...)

Um abraço,

HS