quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Breves notas dos primeiros anos (rascunhos)*

                

A palavra desconstruir é um verbo, infinitivo ou futuro do subjuntivo da primeira ou terceira pessoa do singular. Significa desfazer o que está construído. Desmontar, desagregar. Em Filosofia a desconstrução é um conceito elaborado por Jacques Derrida, como uma crítica de pressupostos dos conceitos filosóficos. Essa noção foi usada, anteriormente, por Edmundo Husserl na obra “Origem da geometria”.

Nessa direção o Filósofo Jacques Derrida trabalha a expressão como uma possibilidade de derivação dos significados tradicionais dos textos conhecidos, criando novos contextos, releituras, desleituras...

No constructo metodológico da Filosofia Clínica o termo desconstrução aparece, principalmente a partir dos estudos e práticas de alguns ex-alunos da primeira geração do novo paradigma, os quais testemunharam a importância e o significado dos movimentos desconstrutivos, como aliados das buscas por bem estar subjetivo. Um determinado momento onde a pessoa partilhante se vê em meio a um processo singular de desestruturação, na interseção com o meio onde vivenciava determinadas circunstancias existenciais como: valores, hábitos, crenças, relações...

Esse movimento desconstrutivo, quando direcionado ao bem estar da singularidade envolvida, com um ponto de apoio clínico eficaz, permite ultrapassar essa fase de negação estrutural/existencial com segurança, em direção a novos endereços existenciais.

No que se refere às dialéticas da desconstrução, costuma ser mais acessível discursar sobre, do que vivenciar seu contexto e dissabores: conflitos, desencontros, rupturas, desentendimentos, somatização... Para a pessoa envolvida nessa desestruturação o tempo é subjetivo. Enquanto alguns precisarão de um tempo X, outros de um tempo Y para ultrapassá-la, podendo seguir em frente ou recuar em sua trajetória existencial. Esse discurso assim constituído possui repercussões que atingem tudo ao redor do sujeito. Constituem um robusto processo de resignificação pessoal.

Nesse período podem acontecer idas e vindas, avanços e retrocessos, experimentações, ilusões e desilusões... Cabe ao Filósofo Clínico, após uma cuidadosa e criteriosa aproximação com o universo singular do Partilhante, através dos Exames Categoriais e posterior leitura de sua Estrutura de Pensamento, acolher e cuidar, acompanhar e contribuir com a qualidade desses deslocamentos.

Talvez o período mais desafiador da desconstrução clínica seja seu início, instante em que costumam ocorrer eventos radicais de incompreensão de parte da família, amigos, colegas de trabalho ou estudo, a pessoa fica estranha aos demais, modifica atitudes, gestos, comportamentos, expressões... gerando confusão ao seu redor com as novas lógicas se apresentando. Essa busca por superação pode levar, quando não tratada adequadamente, como consequência, a internações involuntárias, demissão no trabalho, perda de memória, desajustes familiares, estigmas, morte (em suas várias formas).

Quando a pessoa assim estruturada, em seus instantes de desestruturação, tem a sorte de encontrar um profissional, dotado de aptidão e método, para acolher e cuidar desse fenômeno clínico extremamente rico, isso pode significar um processo de emancipação, desenvolvimento, enriquecimento pessoal, raras vezes compreendido por quem for ficando pelo caminho.   

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Um abraço,


HS

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Breves notas dos primeiros anos (Rascunhos)*


Um dos segredos da atividade clínica do Filósofo, o qual mesmo quando revelado se esconde (devido ao caráter de ser singularidade), é a compreensão e manuseio adequado dos conteúdos da farmácia interna de cada pessoa.

Uma obra que auxilia esse entendimento e o fundamenta inclusive, é o texto de Jacques Derrida, na qual evidencia o alcance e a eficácia das palavras como remédio ou veneno. Ele diz assim: “(...) Sócrates compara a uma droga (Phármakon) os textos escritos que Fedro trouxe consigo. Esse Phármakon, essa ‘medicina’, esse filtro, ao mesmo tempo remédio e veneno, já se introduz no corpo do discurso com toda sua ambivalência. Esse encanto, essa virtude de fascinação, essa potência de feitiço podem ser – alternada ou simultaneamente – benéficas e maléficas” (A Farmácia de Platão, SP, 2005).

Nos exames categoriais, por exemplo, é possível detectar o uso que o Partilhante faz de sua farmácia singular. Com que propriedade e eficácia é capaz de acessar os recursos que necessita para efetivar-se existencialmente.

Muitas vezes acontece do Partilhante usar determinados conteúdos como remédio, acreditando fazer o seu melhor e, constatar em clínica, o contrário do que acreditava. Nesse caso não é raro passar por um processo desconstrutivo, em busca de melhorias a sua autogenia existencial.

Existem muitos aspectos a ser considerados sobre a farmácia da singularidade. Um deles é o fato de que, a todo movimento autogênico, equivalem mudanças significativas na vida da pessoa. As transformações podem ir da linguagem, categoria lugar, significados, buscas, até as formas de expressividade mais radical, quando comparadas às suas anteriores formas de viver e conviver.

Derrida compartilha: “(...) a escritura não é melhor, segundo Platão, como remédio do que como veneno. Antes mesmo que Thamous anuncie sua sentença pejorativa, o remédio é inquietante em si. É preciso saber que Platão suspeita do Phármakon em geral, mesmo quando se trata de drogas utilizadas com fins exclusivamente terapêuticos, mesmo se elas são manejadas com boas intenções e mesmo se elas são eficazes como tais. Não há remédio inofensivo. O Phármakon não pode jamais ser simplesmente benéfico” (A Farmácia de Platão, SP, 2005).

Nesse ponto parece existir uma aproximação entre a medicação alopática da farmácia da esquina, com a medicação contida na farmácia da singularidade do Partilhante, ou seja, não existe remédio sem contra indicação ou destituído de efeitos colaterais. Aqui me utilizo das expressões medicamento e remédio como sinônimos, ok ? (Lembrando os jogos de linguagem de Wittgenstein e a importância de se buscar o sentido que o autor das palavras concede ao seu discurso...)

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Um abraço,

HS